Analisando votos partidários

Todos sabemos que acompanhar as votações dos deputados e senadores é um papel importantíssimo dos cidadãos numa democracia representativa, uma vez que é a partir desta que podemos ter uma ideia de quem realmente defende o que nos interessa e no que acreditamos. Por isso, alguém minimamente informado tende a acompanhar algumas votações e analisar, mesmo que de relance, alguns quadros e reportagens do tipo “como votou cada deputado” em cada tema específico que lhe interessa.

Estas informações, em geral trazidas por jornalistas – ou internautas mesmo –, possuem o problema, entretanto, de não juntarem análises de diferentes votações e organizarem as pautas reunidas dos diferentes partidos e congressistas. Não é pouco comum, então, que esbravejemos contra deputados que votaram contra algo que acreditamos, mas logo esquecemos de seu voto, ou, ainda perdemos de vista que aquele ou outro votou de forma ruim em determinados temas por não possuir destaque. Neste sentido, uma esquematização dos votos é bastante importante, ainda mais para não nos perdermos neste verdadeiro oceano de votações, entre diversos projetos de leis, emendas, requisições de urgência, etc.

Um dos métodos que têm sido bastante utilizado é o índice de governismo, o qual acompanha a porcentagem de votações dos partidos em conjunto com o governo. Este índice, embora sirva para representar a proximidade de deputados ao governo, ainda assim deixa de apresentar exatamente em quais temas e objetos houve concordâncias e discordâncias, o que dificulta posicionar adequadamente os congressistas dentro de determinadas posições e visões políticas. Além disso, é comum que tenhamos votações com unanimidade, como foi o caso do PL de distribuição de absorventes, vetado por Bolsonaro.

Todos os métodos de acompanhamento citados até o presente momento, entretanto, tendem a olhar para as votações de forma individual e pouco organizada, sem desvendar exatamente como as votações se relacionam umas com as outras. Propomos, então, que acompanhar estas votações poderia ser melhorado ainda mais com a comparação da estrutura das votações e posição dos partidos: ao invés de olhar para votos individuais, estudar como cada partido se posiciona em temas diferentes. Algo parecido foi feito pela BBC, na legislatura anterior, por exemplo, com definições manuais e construção de índices inspirados no compasso político (o qual, em si, apresenta algumas limitações, mas não entraremos neste tópico aqui) a partir de votações dos partidos.

Este trabalho nos parece bastante interessante, em especial para a divulgação jornalística, mas gostaríamos de propôr um outro modelo a partir da construção de um espaço de votações, inspirando-nos na Análise Geométrica de Dados, para representar as posições destes partidos. Este método possui algumas vantagens, como facilitar nosso trabalho a partir de algoritmos que já realizem esta comparação de imediato para nós e se basear em oposições reais construídas a partir dos dados, sem assumir oposições (como seria o caso da análise a partir do compasso político).

Neste sentido, propomos uma análise a partir das posições das votações e com foco nos partidos. Um ponto importante deste enfoque nos partidos também se enquadra perfeitamente na forma de nossa democracia: como sabemos, os votos para deputados também vão para as chamadas legendas, entre as quais, então, são divididas as cadeiras obtidas. Ou seja, se aquele seu deputado vota em tudo que você pensa, mas está em um partido que vota completamente diferente, ele pode acabar anulando seu voto, ajudando a eleger justamente quem pensa o completo oposto. Contudo, em conjunto à proposição dos partidos, pretendemos também analisar os votos individuais a partir da clusterização destes parlamentares por meio dos componentes principais obtidos com a análise geométrica, para, em seguida, definirmos a posição dos partidos com relação a Bolsonaro. Parece que estamos falando grego? Calma! Tudo ficará melhor explicado mais à frente, mas antes precisamos falar de onde tiramos nossos dados e como os organizamos. Se quiser pular esta parte, aliás, fique à vontade.

Dados disponíveis na API da Câmara

Nossos dados foram todos obtidos todos diretamente através da API da câmara, uma interface de programação disponibilizada pelo congresso que nos permite requisitar dados diretamente através de uma URL que podemos acessar em nossos computadores e programas estatísticos. Este instrumento é bastante prático porque podemos, a partir dele, coletar dados sem sairmos de nossa área de trabalho ou ter que ir por aí navegando link por link atrás de dados. Na API da Câmara podemos encontrar informações sobre as legislaturas, atividades do congresso, frentes parlamentares, discursos e, claro, votações dos deputados e deputadas nas matérias discutidas.

Tudo isso à disposição em poucas linhas de código, o que facilita ainda mais o acompanhamento das atividades parlamentares e permite que novas análises sejam conduzidas todo dia sobre o tema. Para facilitar ainda mais nosso trabalho, desenvolvemos algumas funções de coleta destes dados (as quais estão disponíveis em nosso github) e a partir delas buscamos as votações e dados dos parlamentares para construir nosso dataset e realizar nossa análise.

Nosso processo de coleta de dados, então, foi basicamente o seguinte: procuramos na imprensa notícias sobre votações de destaque e, a cada votação que nos interessava, anotávamos sua data e tema em um documento a parte, com seus nomes. Um dos principais sites que nos ajudou muito a selecionar nossas votações foi “Como votam os deputados”, do G1, a qual nos forneceu datas e até mesmo números das votações que nos facilitou localizar as votações na API do Câmara.

Quem for utilizar a API vai perceber que estas votações não são necessariamente tão fáceis de serem localizadas: vários projetos de leis, emendas e resoluções são votadas cada dia, o que dificulta a localização de algumas destas. Na mesma medida, diferentes tipos de votações podem ser encontrados, os quais nem sempre estão disponíveis na API, como é o caso das votações dos vetos presidenciais, as quais ocorrem em conjunto com o Senado. E, por fim, para coroar todo este trabalho, cada votação específica possui um ID que é a única forma de ter acesso aos dados da votação na plataforma.

Ao escolhermos a votação a ser analisada, buscávamos as votações em plenário realizadas no dia, a qual gerava um data.frame do qual retirávamos o ID desta votação. Um atalho que recomendamos seguir é notar que todas as proposições possuem um ID e os eventos (nos quais as votações estão incluídas) em torno destas tinham seus números identificados pela proposição. Por exemplo, se uma proposição se identificasse pelo número 23423, sua votação específica teria uma ID parecida a 23423-nn. E, considerando que cada proposição possui sua página no site da Câmara, podemos ter acesso direto ao seu ID, disposto logo na URL da proposição: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=[ID]. Esta ligação entre os IDs e o site da câmara é bastante útil e até a utilizamos esta para automatizar a coleta das ementas dos projetos em questão com o pacote rvest.

Em seguida, ao retirarmos a ID da votação, partíamos para a coleta dos dados das votações, mantendo apenas a identificação do deputado e assim unimos estas votações colocando-as como colunas e assim processávamos os dados para que tivéssemos apenas três modalidades possíveis em cada coluna: Sim; Não; e NA (casos de ausências e abstenções). Nosso dataframe, pois, ficou assim:

Como podem ver, temos bastante casos de deputados que não votaram em várias matérias, uma vez que estes não são obrigados a participar de todas as votações e outros possuem cargos em outras instituições (e, assim, pouco votam). Consideramos esta dimensão importante para a análise do seu voto em 2022, mas acreditamos que não é objetivo deste texto apresentar os mais ou menos presentes, mas sim as posições ideológicas dos deputados, então retiramos esta dimensão de nossa análise, excluindo os dados da ausência de votação em nossa ACM. Os partidos, aqui, se referem àqueles aos quais os deputados se encontram filiados no presente momento: se um deputado foi eleito pelo antigo PSL (hoje UNIÃO), mas migrou para o PL, o seu partido em nossa base de dados é o PL.

Esclarecidos nossos procedimentos básicos, passemos a uma breve análise das votações analisadas e alguns destaques que podemos fazer destas votações.

Votos analisados

A partir de nossa investigação das votações presentes no Congresso, selecionamos cerca de 30 votações que consideramos significantes para o debate popular. Dentre elas, tentamos pegar tanto questões econômicas, sociais, culturais, etc., quanto aquelas que tiveram uma divisão mínima dos votos na câmara. Chegamos, então, nas seguintes votações:

Ementas das votações selecionadas
Cód_ACM Ementa
agrotox Dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e a rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e das embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de pesticidas, de produtos de controle ambiental e afins; altera a Lei Delegada nº 8, de 11 de outubro de 1962; revoga as Leis nºs 7.802, de 11 de julho de 1989, e 9.974, de 6 de junho de 2000, partes de anexos das Leis nºs 6.938, de 31 de agosto de 1981, e 9.782, de 26 de janeiro de 1999, e dispositivo da Lei nº 12.873, de 24 de outubro de 2013; e dá outras providências.
cartvdam Institui o Contrato de Trabalho Verde e Amarelo, altera a legislação trabalhista, e dá outras providências.
cons_mp Altera artigo 130-A da Constituição Federal no que trata da composição do Conselho Nacional do Ministério Público e dá outras providências.
conv_interam_rac Aprova o texto da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, adotada na Guatemala, por ocasião da 43ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos, em 05 de junho de 2013.
correios Dispõe sobre o marco regulatório, a organização e a manutenção do Sistema Nacional de Serviços Postais (SNSP); altera as Leis nºs 5.070, de 7 de julho de 1966, 6.538, de 22 de junho de 1978, 9.472, de 16 de julho de 1997, 10.871, de 20 de maio de 2004, 11.890, de 24 de dezembro de 2008, e 13.326, de 29 de julho de 2016; e revoga as Leis nºs 498, de 28 de novembro de 1948, 937, de 30 de novembro de 1949, 1.882, de 9 de junho de 1953, e 2.610, de 22 de setembro de 1955, e os Decretos-Lei nºs 2.621, de 24 de setembro de 1940, 4.030, de 19 de janeiro de 1942, 6.613, de 22 de junho de 1944, 8.308, de 6 de dezembro de 1945, 8.867, de 24 de janeiro de 1946, e 8.988, de 16 de fevereiro de 1946.
div_fundpart Acrescenta dispositivo ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e altera a Constituição Federal, para fins de reforma político-eleitoral.
dsil Comunicação do Senhor Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Decisão no Inquérito n° 4.781. Prisão em flagrante por crime inafiançável do Senhor Deputado Daniel Silveira.
eletrobras Dispõe sobre a desestatização da empresa Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobras); altera as Leis nºs 5.899, de 5 de julho de 1973, 9.991, de 24 de julho de 2000, 10.438, de 26 de abril de 2002, 10.848, de 15 de março de 2004, 13.182, de 3 de novembro de 2015, 13.203, de 8 de dezembro de 2015, 14.118, de 13 de janeiro de 2021, 9.648, de 27 de maio de 1998, e 9.074, de 7 de julho de 1995; e revoga dispositivos da Lei nº 3.890-A, de 25 de abril de 1961.
fundeb_igrej Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), de que trata o art. 212-A da Constituição Federal; revoga dispositivos da Lei nº 11.494, de 20 de junho de 2007; e dá outras providências.
grilagem Altera as Leis nºs 11.952, de 25 de junho de 2009, 14.133, de 1º de abril de 2021 (Lei de Licitações e Contratos Administrativos), e 6.015, de 31 de dezembro de 1973, a fim de ampliar o alcance da regularização fundiária; e dá outras providências.
imp_renda Altera as Leis nºs 9.249, de 26 de dezembro de 1995, 13.043, de 13 de novembro de 2014, 8.981, de 20 de janeiro de 1995, 7.689, de 15 de dezembro de 1988, 9.430, de 27 de dezembro de 1996, 11.196, de 21 de novembro de 2005, 11.774, de 17 de setembro de 2008, 9.065, de 20 de junho de 1995, 9.718, de 27 de novembro de 1998, 12.973, de 13 de maio de 2014, 10.892, de 13 de julho de 2004, 11.033, de 21 de dezembro de 2004, 11.053, de 29 de dezembro de 2004, 11.312, de 27 de junho de 2006, 11.478, de 29 de maio de 2007, 7.713, de 22 de dezembro de 1988, 9.250, de 26 de dezembro de 1995, 11.482, de 31 de maio de 2007, 8.069, de 13 de julho de 1990, (Estatuto da Criança e do Adolescente), 8.685, de 20 de julho de 1993, 9.532, de 10 de dezembro de 1997, 11.438, de 29 de dezembro de 2006, 12.213, de 20 de janeiro de 2010, 12.715, de 17 de setembro de 2012, 10.865, de 30 de abril de 2004, 9.779, de 19 de janeiro de 1999, 10.522, de 19 de julho de 2002, 8.001, de 13 de março de 1990, e 13.575, de 26 de dezembro de 2017, o Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, e o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, para modificar a legislação relativa ao Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza das pessoas físicas e das pessoas jurídicas e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); revoga a Lei nº 10.312, de 27 de novembro de 2001, e dispositivos das Leis nºs 4.506, de 30 de novembro de 1964, 9.959, de 27 de janeiro de 2000, 10.147, de 21 de dezembro de 2000, 10.637, de 30 de dezembro de 2002, 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e 12.431, de 24 de junho de 2011, e das Medidas Provisórias nºs 2.189-49, de 23 de agosto de 2001, e 2.158-35, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências.
improb_base Altera a Lei n° 8.429, de 2 de junho de 1992, que dispõe sobre improbidade administrativa.
improb_dolo Altera a Lei n° 8.429, de 2 de junho de 1992, que dispõe sobre improbidade administrativa.
improb_nep Altera a Lei n° 8.429, de 2 de junho de 1992, que dispõe sobre improbidade administrativa.
ind.BC Define os objetivos do Banco Central do Brasil e dispõe sobre sua autonomia e sobre a nomeação e a exoneração de seu Presidente e de seus Diretores.
jogazar Dispõe sobre a exploração de jogos e apostas em todo o território nacional; altera a Lei nº 7.291, de 19 de dezembro de 1984; e revoga o Decreto-Lei nº 9.215, de 30 de abril de 1946, e dispositivos do Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei das Contravenções Penais), e da Lei nº 10.406, de 19 de janeiro de 2002 (Código Civil)
lib_san_bas Atualiza o marco legal do saneamento básico e altera a Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007 (Lei do Saneamento Básico), para aprimorar as condições estruturais do saneamento básico no País, a Lei nº 13.529, de 4 de dezembro de 2017, para autorizar a União a participar de fundo com a finalidade exclusiva de financiar serviços técnicos especializados, a Lei nº 11.107, de 6 de abril de 2005 (Lei de Consórcios Públicos), para vedar a prestação por contrato de programa dos serviços públicos de que trata o art. 175 da Constituição Federal, a Lei nº 13.089, de 12 de janeiro de 2015 (Estatuto da Metrópole), para estender seu âmbito de aplicação às microrregiões, e a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010 (Lei de Resíduos Sólidos), para tratar de prazos para a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.
lic_amb Dispõe sobre o licenciamento ambiental; regulamenta o inciso IV do § 1º do art. 225 da Constituição Federal; altera as Leis nºs 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, e 9.985, de 18 de julho de 2000; revoga dispositivo da Lei nº 7.661, de 16 de maio de 1988; e dá outras providências.
mineracao_votourg Requer, nos termos do artigo 155 do Regimento Interno, tramitação sob o regime urgência do Projeto de Lei nº. 191/2020.
minireftrab Institui o Novo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda; dispõe sobre medidas complementares para o enfrentamento das consequências da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pela Covid-19 no âmbito das relações de trabalho; institui o Programa Primeira Oportunidade e Reinserção no Emprego (Priore), o Regime Especial de Trabalho Incentivado, Qualificação e Inclusão Produtiva (Requip) e o Programa Nacional de Prestação de Serviço Social Voluntário; altera a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e as Leis nºs 5.010, de 30 de maio de 1966, 10.259, de 12 de julho de 2001, e 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil); revoga dispositivos da Lei nº 5.584, de 26 de junho de 1970; e dá outras providências
pec.emg Altera os arts. 29-A, 37, 49, 84, 163, 165, 167, 168 e 169 da Constituição Federal e os arts. 101 e 109 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; acrescenta à Constituição Federal os arts. 164-A, 167-A, 167-B, 167-C, 167-D, 167-E, 167-F e 167-G; revoga dispositivos do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e institui regras transitórias sobre redução de benefícios tributários; desvincula parcialmente o superávit financeiro de fundos públicos; e suspende condicionalidades para realização de despesas com concessão de auxílio emergencial residual para enfrentar as consequências sociais e econômicas da pandemia de Covid-19.
posse_armas Altera a Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003, que dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional de Armas (Sinarm) e define crimes, e o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal); e revoga dispositivos das Leis nºs 7.102, de 20 de junho de 1983, e 7.170, de 14 de dezembro de 1983.
precatorios Altera os arts. 100, 160 e 167 da Constituição Federal e o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias para estabelecer o novo regime de pagamentos de precatórios, modificar normas relativas ao Novo Regime Fiscal e autorizar o parcelamento de débitos previdenciários dos Municípios; e dá outras providências.
proib_desp_pand Estabelece medidas excepcionais em razão da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) decorrente da infecção humana pelo coronavírus SARS-CoV-2, para suspender o cumprimento de medida judicial, extrajudicial ou administrativa que resulte em desocupação ou remoção forçada coletiva em imóvel privado ou público, exclusivamente urbano, e a concessão de liminar em ação de despejo de que trata a Lei nº 8.245, de 18 de outubro de 1991, e para estimular a celebração de acordos nas relações locatícias.
refprev Modifica o sistema de previdência social, estabelece regras de transição e disposições transitórias, e dá outras providências.
sisteleit Acrescenta dispositivo ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e altera a Constituição Federal, para fins de reforma político-eleitoral.
sisteleit_col Acrescenta dispositivo ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e altera a Constituição Federal, para fins de reforma político-eleitoral.
sisteleit_dist Acrescenta dispositivo ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e altera a Constituição Federal, para fins de reforma político-eleitoral.
telecom Altera a Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, para modificar valores da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional, a Lei nº 5.070, de 7 de julho de 1966, para modificar valores da Taxa de Fiscalização de Instalação, a Lei nº 11.652, de 7 de abril de 2008, para modificar valores da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública, e as Leis nºs 9.998, de 17 de agosto de 2000, 9.472, de 16 de julho de 1997, 13.649, de 11 de abril de 2018, 4.117, de 27 de agosto de 1962, e 12.485, de 12 de setembro de 2011; e revoga dispositivo da Lei nº 11.934, de 5 de maio de 2009.
vot_imp Acrescenta o § 12 ao art. 14, da Constituição Federal, dispondo que, na votação e apuração de eleições, plebiscitos e referendos, seja obrigatória a expedição de cédulas físicas, conferíveis pelo eleitor, a serem depositadas em urnas indevassáveis, para fins de auditoria.

Os seus códigos utilizados em nossa análise e suas respectivas ID são os seguintes:

Estes votos foram selecionados para que tivéssemos uma visão ampla das posições do congresso e que pudessemos entender como as bases ideológicas da esquerda e direita se estruturam no parlamento brasileiro e quais partidos se aproximam mais da agenda política de Bolsonaro.

Quem é a base de apoio de Bolsonaro?

Como sabemos, o bolsonarismo se baseia em duas grandes frentes ideológicas: o liberalismo econômico e o conservadorismo, unidas com a ressurreição das direitas no mundo inteiro. Contudo, diferentemente das direitas tradicionais brasileiras, estes dois temas são radicalizados e são mobilizados sem aceitar os preceitos da globalização e da mundialização do capital, o que se expressa, em sua escatologia, num confronto contra o “globalismo” e suas elites. Estas posições têm sido interpretadas por alguns autores como o surgimento de uma direita “populista”, contudo, gostaríamos de utilizar as votações no congresso como um instrumento interpretativo para nos perguntarmos em que medida este “populismo” se manifesta nas disputas do congresso nacional. Em outras palavras, queremos testar esta proposição a partir de uma análise programática dos partidos baseada nos votos aqui analisados.

Contudo, a principal questão que nos colocamos a investigar, a partir dos dados, são quais partidos se aproximam mais do bolsonarismo, votando em conjunto, e em especial em quais “frentes” de temas que nos interessam. Afinal de contas, pouco interessa que aquele deputado ou deputada se diga oposição a Bolsonaro mas vote conjuntamente a ele nos temas mais significativos de seu governo. Por isso, identificamos, primordialmente, algumas grandes frentes: a econômica, a ambiental, a de costumes e a política.

Pautas econômicas e políticas

Podemos elencar, dentre as pautas econômicas, as seguintes pautas: a “independência” do BC; as privatizações da Eletrobrás e dos Correios, assim como a liberalização do saneamento básico e das telecomunicações; as reformas nas relações de trabalho, como a carteira verde amarela e as novas regras de contratação durante a pandemia; e, por fim, as votações de interesse fiscal, como os precatórios e a reforma da previdência. Podemos tentar apresentar estes dados brevemente a porcentagem dos deputados dos partidos que votaram “sim” para estes termos:

Proporção de votos ‘Sim’ dos partidos nos temas econômicos
Correios EletroBR Lib_SanBas Imp_Rend Ind_BC Ref_Prev PEC_Emg Precat CartVA MinRefTrab
AVANTE 0.4444444 0.5555556 0.5555556 0.7777778 0.5555556 0.7777778 0.7777778 0.6666667 0.6666667 0.7777778
CIDADANIA 0.7142857 0.7142857 1.0000000 0.0000000 0.8571429 0.8571429 0.8571429 0.1428571 0.8571429 0.8571429
MDB 0.5217391 0.6304348 0.6086957 0.5869565 0.6956522 0.8478261 0.8043478 0.3260870 0.7608696 0.5869565
NOVO 1.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000 1.0000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000
PATRIOTA 1.0000000 1.0000000 0.7500000 0.7500000 1.0000000 1.0000000 1.0000000 1.0000000 0.7500000 1.0000000
PCdoB 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.6666667 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
PDT 0.0476190 0.0476190 0.1428571 0.8095238 0.0000000 0.0476190 0.0952381 0.4761905 0.0000000 0.0000000
PL 0.7108434 0.7831325 0.5903614 0.6746988 0.6987952 0.8795181 0.8192771 0.7951807 0.7349398 0.6626506
PODE 0.4166667 0.5000000 0.4166667 0.4166667 0.6666667 0.6666667 0.7500000 0.4166667 0.5833333 0.6666667
PP 0.7413793 0.6724138 0.5862069 0.7413793 0.7413793 0.8103448 0.7586207 0.8103448 0.7931034 0.6724138
PROS 0.4166667 0.4166667 0.3333333 0.6666667 0.5833333 0.4166667 0.5000000 0.5833333 0.4166667 0.5000000
PSB 0.0333333 0.0666667 0.2000000 0.7666667 0.2000000 0.1666667 0.1333333 0.1333333 0.0000000 0.0000000
PSC 0.6363636 0.6363636 0.2727273 0.7272727 0.6363636 0.6363636 0.7272727 0.8181818 0.4545455 0.6363636
PSD 0.4313725 0.5098039 0.4509804 0.6274510 0.7058824 0.7843137 0.7254902 0.6470588 0.6274510 0.6470588
PSDB 0.5526316 0.5526316 0.4473684 0.5000000 0.5789474 0.6578947 0.6842105 0.4736842 0.6842105 0.5000000
PSOL 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.6000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
PT 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.8548387 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.0161290
PTB 0.4285714 0.7142857 0.8571429 0.4285714 0.8571429 1.0000000 0.7142857 0.4285714 0.8571429 0.4285714
PV 0.2500000 0.0000000 0.5000000 0.7500000 0.2500000 0.2500000 0.2500000 0.2500000 0.0000000 0.5000000
REDE 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
REPUBLICANOS 0.6226415 0.8113208 0.6981132 0.7358491 0.7735849 0.7735849 0.8490566 0.6981132 0.7358491 0.6415094
S.PART. 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
SOLIDARIEDADE 0.6000000 0.7000000 0.4000000 0.8000000 0.7000000 0.8000000 0.8000000 0.9000000 0.6000000 0.6000000
UNIÃO 0.6274510 0.8235294 0.6078431 0.5882353 0.7843137 0.8823529 0.7647059 0.7058824 0.7450980 0.7647059

Nesta tabela em questão, podemos observar como a maior parte dos partidos da câmara concordaram com as pautas econômicas bolsonaristas, enquanto os partidos de esquerda se opuseram a estes votos (com exceção da proposta do imposto de renda). Note, também, que estes dados tratam a ausência de votos como parte do cálculo das frequências, o que significa que a diferença do total de votos não é necessariamente apenas de votos “Não”. Este, inclusive, pode ser um dos motivos para o qual tantas de suas votações em pautas econômicas tiveram votos divididos (já que boa parte dos votos seriam ausentes, ao invés de “Não”), mas, ao mesmo tempo, é inegável que muitos destes partidos são menos ideológicos do que o PL de Bolsonaro ou o NOVO, o que facilita com que estes deputados tenham votações mais diversas.

Devemos esclarecer que os deputados ausentes, contudo, não são apenas deputados “que não trabalham”, mas também aqueles que deixaram seus cargos (seja lá por vários motivos, indo-se desde motivos pessoais, como foi o caso de Jean Wyllys, até aqueles que foram assumir outros cargos no poder público).

Outro tema que marcou profundamente este período de votações na Câmara foram as diversas tentativas de reforma política, das quais muitas foram pautadas diretamente pelo próprio Centrão e algumas pela base bolsonarista, como o famigerado voto impresso. Aqui já podemos encontrar uma divisão para além da díade esquerda e direita: estes partidos se dividiram com relação às propostas do Congresso (como as mudanças no conselho do MP, nova lei da improbidade e reforma do sistema eleitoral), como é o caso, por exemplo, de NOVO e PP, na direita, e PT e PSOL, na esquerda. Como veremos melhor à frente, as únicas pautas, neste setor, que mantiveram a divisão entre esquerda e direita foram as novas regras da distribuição do fundo partidário (que passa a contar os deputados mulheres e negros com peso dois na pontuação dos partidos) e o voto impresso.

Proporção de votos ‘Sim’ dos partidos nos temas políticos
Cons_MP Improb_base Improb_dolo Improb_nep RefSistEleit SistEleit_Col SistEleit_Dist FundPart_Divers Voto_Impres
AVANTE 0.6666667 0.6666667 0.7777778 0.1111111 0.6666667 0.6666667 0.0000000 0.4444444 0.2222222
CIDADANIA 0.2857143 0.8571429 0.5714286 0.8571429 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.7142857 0.2857143
MDB 0.5000000 0.6739130 0.6086957 0.0869565 0.5217391 0.4347826 0.0434783 0.6086957 0.4565217
NOVO 0.0000000 0.0000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.6250000
PATRIOTA 0.2500000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 1.0000000 0.7500000 0.0000000 0.5000000 0.5000000
PCdoB 0.5555556 0.7777778 0.7777778 0.0000000 0.7777778 0.7777778 0.0000000 0.7777778 0.0000000
PDT 0.1904762 0.6190476 0.7142857 0.8095238 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.8571429 0.0952381
PL 0.5180723 0.7831325 0.6385542 0.3975904 0.6506024 0.5783133 0.2168675 0.3975904 0.5903614
PODE 0.4166667 0.1666667 0.5833333 0.4166667 0.6666667 0.5833333 0.0000000 0.5833333 0.5833333
PP 0.7413793 0.8448276 0.6379310 0.0689655 0.7413793 0.7241379 0.0172414 0.6206897 0.3793103
PROS 0.3333333 0.5833333 0.5000000 0.3333333 0.4166667 0.4166667 0.0000000 0.5000000 0.5000000
PSB 0.2666667 0.4666667 0.7000000 0.6666667 0.6333333 0.7000000 0.0000000 0.7333333 0.1666667
PSC 0.6363636 0.7272727 0.4545455 0.1818182 0.8181818 0.8181818 0.0909091 0.6363636 0.8181818
PSD 0.4313725 0.6078431 0.5882353 0.1568627 0.3921569 0.4117647 0.0196078 0.4117647 0.4313725
PSDB 0.2368421 0.5263158 0.6052632 0.1578947 0.5263158 0.4473684 0.0526316 0.6578947 0.2631579
PSOL 0.0000000 0.0000000 0.6000000 0.6000000 0.0000000 0.0000000 0.1000000 0.7000000 0.0000000
PT 0.8548387 0.8548387 0.8387097 0.0483871 0.7741935 0.8064516 0.0000000 0.8064516 0.0000000
PTB 0.2857143 0.5714286 0.4285714 0.1428571 0.5714286 0.5714286 0.2857143 0.2857143 0.2857143
PV 0.2500000 0.7500000 1.0000000 0.5000000 0.2500000 0.5000000 0.0000000 1.0000000 0.5000000
REDE 0.0000000 0.5000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000
REPUBLICANOS 0.6603774 0.7358491 0.6226415 0.1132075 0.7547170 0.7735849 0.0566038 0.6981132 0.6037736
S.PART. 0.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
SOLIDARIEDADE 0.4000000 0.8000000 0.6000000 0.2000000 0.8000000 0.8000000 0.1000000 0.4000000 0.3000000
UNIÃO 0.3921569 0.7058824 0.6666667 0.4313725 0.5294118 0.4313725 0.0588235 0.3333333 0.5098039

Podemos perceber, então, algumas divisões entre estes partidos, variando-se desde seu conteúdo ideológico até a presença ou não de uma organização ideológica explícita. Como sabemos, o congresso brasileiro não é nada avesso aos partidos “pega-tudo”, com um de seus maiores partidos (MDB) sendo um exemplo clássico deste tipo. Além disso, temos temas que são mais ou menos controversos: na seara econômica, por exemplo, o imposto de renda foi muito mais aceito pela esquerda, assim como a “independência” do BC foi acolhida amplamente, com mais de 70% de votos “Sim”, por praticamente todos os partidos de direita. Por isso, um agrupamento entre estes grupos sempre terá um ou outro problema e deixará de ressaltar alguns elementos de nossos dados, mas, por mais que aceitemos que toda sistematização é também uma traição (para parafrasear uma frase sobre tradução), estas muitas vezes são necessárias para interpretarmos a realidade e nos atermos aos pontos que realmente diferenciam um grupo de outro.

Outras pautas

Contudo, antes de sistematizarmos mais profundamente a divisão destes grupos, ainda precisamos apresentar uma terceira dimensão de nossa análise, englobando os temas ambientais, de costumes e de interação com os outros poderes. Estas posições estão expressas na tabela abaixo, podendo-se destacar que boa parte das oposições entre esquerda e direita se reproduzem por aqui: a esquerda se opôs, por exemplo, às liberalizações nas regras ambientais, à posse de armas e à distribuição de verbas do FUNDEB a escolas sem fins lucrativos (dentre as quais se destacam escolas religiosas), enquanto apoiou a prisão de Daniel Silveira, a ratificação da Convenção Interamericana sobre o Racismo e a suspensão temporária de despejos durante o período da pandemia. A direita, por sua vez, se encontrou mais dividida nestes termos: podemos identificar grupos mais hardcore na defesa do liberalismo e do conservadorismo, se opondo à prisão de Daniel Silveira, à convenção sobre racismo e à suspensão dos despejos, enquanto outro grupo mais soft aceitaria estes termos.

Proporção de votos ‘Sim’ dos partidos em temas diversos
Agrotox Grilagem Lic_Amb Mineracao JogAzar ConvInterRac Pri_DSil Posse_Arm Proib_Desp_Pand FUNDEB_Igr
AVANTE 0.5555556 0.5555556 0.5555556 0.5555556 0.6666667 0.6666667 0.7777778 0.4444444 0.4444444 0.4444444
CIDADANIA 0.2857143 0.5714286 0.7142857 0.1428571 0.8571429 0.7142857 0.7142857 0.8571429 0.4285714 0.7142857
MDB 0.6304348 0.6521739 0.5652174 0.4782609 0.6086957 0.6739130 0.6086957 0.6086957 0.4130435 0.6521739
NOVO 1.0000000 1.0000000 1.0000000 1.0000000 0.8750000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000 1.0000000
PATRIOTA 0.7500000 0.7500000 0.5000000 0.2500000 0.7500000 0.7500000 0.7500000 0.0000000 0.5000000 0.5000000
PCdoB 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.5555556 0.7777778 0.7777778 0.0000000 0.6666667 0.0000000
PDT 0.0000000 0.0000000 0.0476190 0.0476190 0.5238095 0.9523810 0.7619048 0.2857143 0.8571429 0.0000000
PL 0.7710843 0.7108434 0.7108434 0.7710843 0.3734940 0.5662651 0.3614458 0.6987952 0.2168675 0.7349398
PODE 0.6666667 0.3333333 0.5833333 0.2500000 0.2500000 0.5833333 0.2500000 0.5833333 0.5833333 0.5000000
PP 0.7758621 0.6379310 0.6724138 0.7241379 0.6551724 0.7241379 0.6724138 0.5862069 0.5172414 0.6724138
PROS 0.4166667 0.4166667 0.4166667 0.3333333 0.4166667 0.5833333 0.4166667 0.5000000 0.5000000 0.6666667
PSB 0.0000000 0.0333333 0.1333333 0.0333333 0.3333333 0.8000000 0.8000000 0.1666667 0.6666667 0.1000000
PSC 0.7272727 0.8181818 0.6363636 0.6363636 0.3636364 0.4545455 0.2727273 0.3636364 0.3636364 0.3636364
PSD 0.5686275 0.5098039 0.5882353 0.5098039 0.4509804 0.7450980 0.5294118 0.5490196 0.2745098 0.6078431
PSDB 0.4210526 0.6052632 0.5000000 0.3421053 0.4210526 0.6578947 0.6315789 0.3421053 0.1842105 0.5526316
PSOL 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.8000000 0.8000000 0.0000000 0.7000000 0.0000000
PT 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.0161290 0.8548387 0.8387097 0.0161290 0.8387097 0.0161290
PTB 0.7142857 0.5714286 0.5714286 0.4285714 0.1428571 0.2857143 0.2857143 0.5714286 0.1428571 0.5714286
PV 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.5000000 0.7500000 0.5000000 0.2500000 0.7500000 0.0000000
REDE 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000
REPUBLICANOS 0.5849057 0.6226415 0.6603774 0.6792453 0.2452830 0.7358491 0.6792453 0.5849057 0.4716981 0.7735849
S.PART. 0.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
SOLIDARIEDADE 0.7000000 0.9000000 0.4000000 0.7000000 0.6000000 0.5000000 0.8000000 0.5000000 0.5000000 0.6000000
UNIÃO 0.6862745 0.6666667 0.7647059 0.6666667 0.5294118 0.6666667 0.6274510 0.6666667 0.1960784 0.7254902

Decerto não será surpresa para ninguém que o grupo hard do liberalismo se trata dos bolsonaristas (e novistas), enquanto o soft seria o centrão. Esta talvez seja uma das viradas mais pronunciadas no congresso durante este período de nossa análise, mas ainda que esta direita radical tenha tomado o poder no executivo, ela não possui forças para efetivamente impôr suas pautas sozinha, ainda mais porque não existe, dentro da direita tradicional, prioridade com relação a estas pautas. É por este motivo que não temos tantas votações dos costumes: estes, mesmo se passam nas comissões especiais da Câmara, não tendem a ser levados a plenário pelo presidente da câmara, membro do Centrão. Tal situação também evidencia os limites do poder executivo, o qual, por mais que possua as emendas provisórias – das quais Bolsonaro usou e abusou, inclusive sendo campeão de vetos derrubados –, ainda depende profundamente do congresso para governar.

Nesta análise em questão, podemos ver que a base de Bolsonaro é, na realidade, apenas uma pequena parcela do congresso, apesar de seu imenso sucesso nas eleições de 2018 (seu antigo partido, o PSL, foi o segundo mais votado, com cerca de 52 deputados eleitos). É importante notar, pois, que esta ascensão se deu conjuntamente ao derretimento de siglas clássicas da direita tradicional, como o MDB e o PSDB, mas, mesmo com este processo de reconfiguração eleitoral (que Singer denominou de “reativação da direita”), podemos ver que o chamado Centrão ainda possui um papel central na organização do congresso brasileiro.

Tudo isso, acreditamos, reforça a importância deste trabalho em te ajudar a escolher uma bancada que possa representar nossos interesses e ajudar ou monitorar o presidente eleito neste ano (2022). Mas ainda precisamos seguir com um método para posicionar e definir mais claramente estes partidos e quantificar, afinal, a composição da Câmara. Este método, para nós, é a análise geométrica de dados.

Análise Geométrica das votações

Nossa análise das votações, utilizando-as como indicativos da posição política dos partidos, deputados e das composições dentro do congresso, passa também por uma proposta metodológica diferenciada: não acreditamos que simplesmente categorizar as votações em esquerda e direita seria suficiente, mas, pelo contrário, que precisaríamos deixar que estas categorias se sobressaísem a partir dos próprios dados. O motivo para esta motivação é que esquerda e direita são, também, conceituações historicamente mutáveis e, assim, defini-las previamente nos levaria a esconder as oposições reais existentes dentro do congresso. Por isso, nos interessamos em analisar a composição dos votos nos temas selecionados a partir da chamada “análise geométrica de dados”, uma vez que o propósito deste modelo de análise se trata de garantir uma descrição dos dados, de foco qualitativo, para que possamos compreender a sua estrutura, assim como evitar a imposição de visões do pesquisador sobre os dados.

Os maiores princípios deste método se dão a partir de dois eixos centrais: primeiro, há uma redução dos dados, assimilando múltiplas variáveis e modalidades dentro de dimensões que condensam estas informações e reduzem as informações desnecessárias de nossa análise (as métricas utilizadas para tal são diferenciadas dependendo do método utilizado, podendo-se utilizar medidas como a correlação, probabilidade condicional, etc.) enquanto explica-se a maior quantidade de variância possível; e, segundo, as oposições, proximidades e níveis de particularidade destas modalidades são representadas espacialmente, contruindo-se uma representação geométrica que facilita nossa interpretação das categorias que aproximam ou distanciam nossos casos analisados, formando-se uma nuvem de casos (linhas da nossa base de dados) e categorias (marcações únicas de cada coluna).

Em nossa análise, portanto, como pode ser visto em nossa base de dados, temos como casos os deputados e como modalidades as votações nos temas do congresso e o partido destes deputados. Contudo, para construir nosso espaço utilizaremos apenas as votações como forças constituintes deste espaço, deixando os partidos como variáveis suplementares, posicionando-os na média de seus deputados. Além disso, como já falamos, também excluímos as abstenções da composição de nosso espaço de votação, mas estas ainda estão presentes em nossos dados e certamente puxaram alguns deputados mais para o centro – isto ficará mais claro na clusterização dos indivíduos.

Espaço da votação dos partidos

A partir do processamento dos dados em uma ACM, pudemos identificar duas dimensões significativas para nossa análise: uma primeira, na qual temos a oposição entre esquerda e direita, com esta votando a favor das propostas de Bolsonaro e aquela contra; e, segundo, uma oposição entre deputados pró-establishment e aqueles anti-establishment, opondo-se tanto a votações de interesse do congresso quanto a temas com um consenso geral dentro da câmara. Estas duas dimensões estão representadas, respectivamente, horizontal e verticalmente, em nossa ACM.

Uma das primeiras questões que devem ficar claras é a posição de determinados partidos dentro deste espaço: entre partidos de esquerda, temos PT, PSOL, REDE, PDT, PCdoB e PSB, localizados acima; entre os partidos de direita temos o PATRIOTA, UNIÃO, NOVO, PL e REPUBLICANOS, localizados abaixo. Mas vale a pena ressaltar que a grande diferença real, aqui, se encontra entre esquerda e não-esquerda: o centrão, ao invés de ser um centro de fato, realiza votações constantes com a direita e se afasta bastante da esquerda, enquanto se aproxima do bolsonarismo.

O elemento que os difere da direita hardcore, como já falamos, se trata de sua posição com relação ao establishment, representado na segunda dimensão de nossa ACM. Aqui, contudo, não se trata apenas de uma divisão dentro da direita, mas que também afeta setores da esquerda – no caso desta, com níveis limitados. Podemos citar como exemplo os deputados do PSOL e PDT, que votaram principalmente contra a mudança do conselho do Ministério Público e as reformas no sistema eleitoral (seja no texto base e na coligação), mas não votaram contra a maioria nos termos da divisão do fundo partidário, da prisão de Daniel Silveira, etc. O PSOL, PV e REDE também se posicionaram contra a nova lei da improbidade administrativa, o que os colocou, dentre os partidos de esquerda, como os mais anti-establishment. Contudo, os campeões do anti-establishment são partidos de direita, em especial o NOVO, que além de se oporem a estas mudanças favoráveis ao congresso ainda foram “do contra” nos termos da suspensão de despejos, na ratificação da convenção interamericana sobre o racismo, na nova conta da divisão do fundo partidário, etc.

Esta diferença entre os partidos, aqui representada em distâncias geométricas, configura divisões que se expressam objetivamente em programas e atuações de suas lideranças. O bolsonarismo se associar ao anti-establishment é uma representação perfeita e parece confirmar a dimensão dual de sua perspectiva política, esbanjando um liberalismo conservador digno de espantar o próprio centrão brasileiro. Além disso, no caso de partidos como PCdoB e PT, nos parece mera retórica apontá-los como populistas, uma vez que, como nossos dados demonstram, eles defendem o establishment de forma bastante consistente, compondo posições de acordo com a maioria do congresso e debatendo temas nos quais eles realmente possuem divergências programáticas.

Neste sentido, um ponto interessante que pode ser destacado dentre essas diferenças de programa é o completo abandono das pautas ambientais por parte de deputados que não sejam de esquerda: praticamente todos os outros partidos não se opuseram às propostas problemáticas de liberalização da exploração da natureza e, de fato, este parece ser um tema exclusivo da esquerda, assim como a oposição à utilização de recursos do FUNDEB para entidades de ensino sem fins lucrativos e à liberalização do porte de armas e outros temas que não necessariamente se limitam a uma dimensão econômica. Direita e esquerda, então, não se diferenciam apenas por posições econômicas (mais ou menos intervenção do Estado na economia), como o modelo do compasso político forçaria sobre nossos dados.

Comprenendidas as posições e programas em disputa no congresso, foquemo-nos numa avaliação mais objetiva dos partidos e suas divisões. Partamos, pois, para a clusterização dos nossos deputados, tentando compreender seus padrões de votação e suas distribuições entre os partidos políticos aqui presentes.

Clusters de deputados e distribuição entre partidos

Uma clusterização nada mais é do que um agrupamento de uma sequência de casos em grupos homogêneos, tendo-se como objetivo reduzir ao máximo a variância dentro do grupo e aumentando a distância entre estes a partir de um número selecionado de clusters. Isto significa que este processo se torna possível em uma aplicação computadorizada porque nossos programas adquirem objetivos claros e precisos para dividir da melhor forma possível os nossos grupos a partir do número por nós definidos. Nosso modelo de clusterização, entretanto, é um pouco diferente porque, ao tratarmos de dados categóricos (com votos “sim”, “não” e “ausente”), optamos por clusterizar nossos deputados a partir de suas posições em nossa ACM. Isto é interessante não apenas porque convertemos dados categóricos (votos) em numéricos (posições), mas também porque, como já falamos, nos atentamos aos pontos que realmente interessam na análise, sintetizados em nossas duas dimensões principais (esquerda x direita e pró-establishment x anti-establishment).

Considerando o propósito de dividirmos nossos grupos em posições políticas, decidimos dividir os deputados em 5 clusters, visando chegar a uma separação entre esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita. Como podemos ver no gráfico abaixo, esta divisão se encontrou parcialmente representada:

Estes clusters, então, representam uma divisão entre a esquerda e a direita mais ou menos pró-establishment, permitindo-nos representar as tensões internas dentro das próprias forças políticas que se identificam na esquerda ou na direita. Para compreender as diferentes votações dos membros que participam de determinados clusters, podemos apresentar com quais votos cada cluster se associa mais:





O cluster 3, como podemos ver, se tratam dos deputados ausentes, seja por exoneração, licença médica, etc., o que os aproxima do centro de nosso espaço de votação, e, neste sentido, abriga políticos de diversos matizes. Os outros grupos, entretanto, possuem associações com diferentes partidos. É possível notar, por exemplo, como o cluster 1, da direita hardcore da qual falamos, tem entre seus partidos o PL, partido de Bolsonaro, o UNIÃO e o NOVO. Também na direita temos o cluster 2, o qual, ao contrário do anterior, se associa à direita soft, ou o famoso centrão, com partidos como o MDB, SOLIDARIEDADE, REPUBLICANOS e o PP. Na esquerda também temos uma divisão, mas menos pelo nível de esquerda, e mais pela oposição ao establishment: dentre os contrários a este, representados no cluster 4, temos o PSOL, PDT e PSB, e, nos favoráveis, se destacam o PT, PCdoB e também o PSB.

Mas quem são, afinal de contas, os deputados que representam estas posições? Dispomos logo abaixo os deputados mais representativos de cada cluster:

Principais deputados do cluster 1
nome siglaPartido
111 Luiz Philippe de Orleans e Bragança PL
116 Junio Amaral PL
120 Caroline de Toni PL
123 Daniel Freitas PL
159 Paulo Eduardo Martins PL
Principais deputados do cluster 2
nome siglaPartido
29 Raul Henry MDB
73 Alcides Rodrigues PATRIOTA
176 Genecias Noronha PL
235 Vicentinho Júnior PP
256 Eduardo da Fonte PP
Principais deputados do cluster 3
nome siglaPartido
75 Márcio Jerry PCdoB
98 Sergio Vidigal PDT
278 João H. Campos PSB
413 Assis Carvalho PT
439 Margarida Salomão PT
Principais deputados do cluster 4
nome siglaPartido
4 André Janones AVANTE
92 Dagoberto Nogueira PDT
283 Tabata Amaral PSB
345 Subtenente Gonzaga PSD
562 Felipe Rigoni UNIÃO
Principais deputados do cluster 5
nome siglaPartido
272 Milton Coelho PSB
415 Padre João PT
421 Vicentinho PT
424 Henrique Fontana PT
426 Reginaldo Lopes PT

Podemos ver, nos deputados do cluster 1, políticos extremamente bolsonaristas, tais quais o “príncipe” Philippe de Orleans e Bragança, Caroline de Toni, todos do PL, assim como no cluster 2 também temos predominantemente membros do centrão. No cluster 3, se destacam políticos licenciados, exonerados e até mesmo falecidos. No cluster 4, chegamos a encontrar André Janones e dois membros da bancada Lehmann (Felipe Rigoni e Tábata Amaral), que não seriam necessariamente os deputados mais à esquerda, mas que tiveram várias votações à esquerda. Isto assim se dá porque o que caracteriza o cluster 4 não é apenas votar em temas caros à esquerda, mas também em oposição à “política tradicional”. É possível inclusive demonstrar como estes grupos se diferenciam a partir de uma média da posição dos membros destes clusters:

Média das posições dos indivíduos agrupados em seus clusters
Dim1 Dim2
1 -0.5277071 0.5643672
2 -0.3076345 -0.1190097
3 -0.0369316 -0.4278250
4 0.9955251 0.4023669
5 1.1789800 -0.0569617

Nesta tabela podemos ver, então, como o cluster 1 se encontra mais à direita que o 2, enquanto o cluster 4 não é mais de esquerda que o 5. Por isso, é preciso reconhecer que existem variações dentro dos clusters, mas o padrão geral de suas posições se mantém: a maior parte dos membros de um cluster votam de acordo com os padrões já esboçados anteriormente. Sendo assim, quando pensamos em votar em um partido, precisamos pensar nos tipos de deputados que eles terão em suas fileiras e a divisão dos clusteres entre estes pode ser uma indicação interessante em qual partido votar. Vejamos a distribuição destes:

Distribuição dos deputados dos partidos por cluster
1 2 3 4 5
AVANTE 0.0000000 0.6666667 0.1111111 0.1111111 0.1111111
CIDADANIA 0.2857143 0.5714286 0.1428571 0.0000000 0.0000000
MDB 0.1739130 0.6304348 0.1956522 0.0000000 0.0000000
NOVO 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
PATRIOTA 0.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000 0.0000000
PCdoB 0.0000000 0.0000000 0.2222222 0.0000000 0.7777778
PDT 0.0000000 0.0000000 0.1428571 0.8571429 0.0000000
PL 0.3975904 0.4698795 0.1084337 0.0120482 0.0120482
PODE 0.1666667 0.5000000 0.2500000 0.0833333 0.0000000
PP 0.0862069 0.7931034 0.1206897 0.0000000 0.0000000
PROS 0.0833333 0.4166667 0.3333333 0.1666667 0.0000000
PSB 0.0000000 0.1000000 0.2000000 0.4000000 0.3000000
PSC 0.0909091 0.6363636 0.2727273 0.0000000 0.0000000
PSD 0.1568627 0.5882353 0.1960784 0.0588235 0.0000000
PSDB 0.1578947 0.5263158 0.2631579 0.0263158 0.0263158
PSOL 0.0000000 0.0000000 0.2000000 0.8000000 0.0000000
PT 0.0000000 0.0161290 0.1129032 0.0000000 0.8709677
PTB 0.2857143 0.2857143 0.4285714 0.0000000 0.0000000
PV 0.2500000 0.0000000 0.0000000 0.5000000 0.2500000
REDE 0.0000000 0.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000
REPUBLICANOS 0.0754717 0.7547170 0.1509434 0.0000000 0.0188679
S.PART. 0.0000000 0.0000000 1.0000000 0.0000000 0.0000000
SOLIDARIEDADE 0.1000000 0.8000000 0.1000000 0.0000000 0.0000000
UNIÃO 0.3529412 0.5098039 0.0980392 0.0392157 0.0000000

Como podemos ver, temos diversos tipos de partidos: desde que aqueles basicamente têm gente de tudo quanto é tipo, como o AVANTE; aqueles que se limitam à direita, possuindo deputados que se posicionam apenas entre os clusters 1, 2 e 3, como o PSC, PTB, REPUBLICANOS, etc. Dentre a esquerda, temos partidos com uma predominância muito maior de deputados pró-establishment, como o PT e o PCdoB, e outros de uma esquerda mais anti-establishment, como o PDT e o PSOL, enquanto o PSB faria o meio-de-campo destes grupos (inclusive com a maior porcentagem de membros do cluster 2 na esquerda). Da direita, os partidos mais radicalizados são o NOVO e o UNIÃO, com ou todos ou maioria de seus deputados dentro do cluster 1. O PL, de Bolsonaro, parece possuir uma posição mais eclética, inclusive tendo como maioria de seus deputados membros do cluster 2. Isto se deve, obviamente, ao fato de ser um partido do centrão anteriormente à chegada de Bolsonaro, e pode ser que na próxima eleição sua configuração se modifique.

Mas quais são os deputados e deputadas que se posicionam nos extremos de nosso espaço de votação? Podemos vê-los a seguir:

Deputados mais à esquerda
nome siglaPartido
100 Idilvan Alencar PDT
102 David Miranda PDT
408 Ivan Valente PSOL
484 Túlio Gadêlha REDE
Deputados mais à direita
nome siglaPartido
140 Bia Kicis PL
Deputados mais anti-establishment
nome siglaPartido
116 Junio Amaral PL
Deputados mais pró-establishment
nome siglaPartido
81 CHICO LOPES PCdoB

Os deputados mais à esquerda se dividem entre o PDT e o PSOL, enquanto o mais à direita é uma única deputada bolsonarista: Bia Kicis. Dentre os mais anti-establishment, também temos um bolsonarista, Junio Amaral, e o mais pró-establishment é um senador antigo do PCdoB, sem votações. Para ilustrar melhor a posição destes deputados pró-establishment, podemos analisar o data.frame dos indivíduos posicionados mais abaixo em nosso espaço de votação com votação no tema do sistema eleitoral (um dos pontos mais importantes para definir o posicionamento neste eixo):

Obviamente, estes grupos votam a favor dos temas do congresso, como já falamos, e são membros de partidos do centrão. Isto também não significa que os membros ausentes não sejam, em certa medida, de fato pró-establishment, uma vez que sua ausência na votação implica na aceitação, mesmo que tácita, dos temas que estão sendo votados. Este ponto também foi importante para definirmos a ideia de establishment como o termo mais adequado para a definição deste eixo de nossa análise.

Mas aonde Bolsonaro se posicionaria especificamente dentre estes clusters? Esta tarefa poderia ser difícil de se realizar se não tivéssemos um representante da família no congresso. E sabem em qual cluster Eduardo Bolsonaro está? Se você respondeu “cluster 1”, você acertou! Não nos parece errado afirmar que o grosso do bolsonarismo está no cluster 1 e mesmo que estes grupos se organizem em partidos diferentes, suas posições políticas não são divergentes suficientes para dizer que não atuam, de fato, pelos mesmos interesses e não tem as mesmas posições políticas.

Recomendações para a seleção de deputados

Um dos pontos principais deste texto é também apontar que a máxima do senso-comum que “todos os partidos são iguais” é balela pura e que políticos fazem parte de diversos espectros, tendo aqueles que atuam mais ou menos ideologicamente, mais ou menos fisiologicamente, etc., e que a solução para problemas políticos não se dão com a anti-política. Pelo contrário, políticos servem para defender ideias e propósitos sociais e é nosso papel atuar com e sem o voto para garantir não apenas a representação, mas também que certas ideias e propostas sejam cada vez mais ou menos adotadas. Se vemos tantos deputados aceitando tacitamente os pressupostos de liberalização da exploração do meio-ambiente e oferta privatista dos serviços públicos, isto se dá pelo fato que estes grupos se organizam politicamente de forma extensiva e intensiva. Estudos do DIAP mostram, por exemplo, que empresários (que obviamente não são micro-empresários) são o grupo mais representado no congresso. Quantos destes, você acha, vão trabalhar para defender seus interesses, se você é trabalhador? Na mesma medida, a bancada ruralista, da bíblia e da bala estão aqui há muito tempo, impondo suas pautas e fazendo seu lobby, e a sua eleição foi recorde em 2018.

Por isso, a virada à direita no Brasil não pode ser dissociada das condições do congresso: ela só chegou aonde chegou porque, historicamente, elegemos figuras conservadoras para este espaço. E, na mesma medida, esta guinada também não foi absoluta, mantendo-se elementos da direita fisiológica, o que freou os direitistas hardocore, mas tal situação pode piorar se o poder legislativo não conseguir constituir uma base progressista mínima. E, assim, tomar cuidado com as votações para o legislativo é algo central na próxima eleição: aquele voto no primo, conhecido, meme ou jogador de futebol pode ser justamente um dos pontos para a direita fisiológica se manter no poder, assim como pode fortalecer ainda mais os grupos conservadores que usam e abusam desta estratégia para arrancar votos dos apolíticos. Tiririca e Frota fazem oposição a Bolsonaro, mas os outros deputados que eles ajudaram a eleger certamente não o fazem, como nossos dados demonstram.

Alguns roteiros de votação podem ser esboçados aqui: primeiro, analise os dados das votações e se pergunte se concorda com elas. Por exemplo, acha correto as novas regras ambientais? Concorda com as privatizações? Acha que os armamentos devem ser liberados. Acreditamos que nossos gráficos e tabelas dão uma boa ideia de onde se posicionar e assim que definir melhor os pontos com os quais você concorda, tente achar o partido mais próximo de seus pontos, seja por meio de nossa ACM ou pelas tabelas de votações “Sim”. Por exemplo, se se discorda das privatizações e das mudanças nas leis ambientais, mas não concorda com as mudanças no conselho do MP, um partido da esquerda anti-establishment, como PDT e PSOL, pode ser mais interessante. Também consulte a composição destes partidos em seu estado: em alguns eles tendem a ser mais de esquerda e em outros mais de direita, então evitar certos votos para grupos de seu estado pode ser importante.

Não pretendemos lançar um programa que te direcione a um candidato porque acreditamos que a política é coletiva, é entender o projeto de um partido e de grupos organizados, com eles se juntar e atuar. Por isso, entender a posição real destes grupos é muito mais importante do que achar um indivíduo perdido que possa te representar. Sendo assim, nosso maior conselho não seria simplesmente decidir o voto, mas também se engajar politicamente e participar do debate coletivo dentro destes partidos. Não falamos necessariamente de filiação, mas, por exemplo, de acompanhar as posições dos partidos que te interessam, buscar coletivos do partido, entrar em grupos destes em redes sociais, etc., podem ser caminhos interessantes para conhecer melhor do debate político e conhecer um grupo no qual se tenha confiança em votar. Não caia no conto do vigário da votação em conhecidos e muito menos jogue votos fora, seja com o voto nulo ou votando pela zoeira. Boa parte de seu destino está nas urnas eletrônicas!

Referências